quela coisinha magricela, sempre de joelhos
esfolados, cabelos emaranhados e roupas rasgadas,
feroz e voluntariosa. Arya nunca parecera ajustada,
nunca mais do que ele..., mas conseguia sempre fazer
Jon sorrir. Daria qualquer coisa para estar agora
com ela, despentear-lhe os cabelos uma vez mais e
observá-la fazer uma careta, ouvi-la terminar uma
frase com ele.
- Quebrou meu pulso, bastardo.
Jon ergueu os olhos ao ouvir a voz carrancuda.
Grenn erguia-se a seu lado, de pescoço grosso e rosto
vermelho, com três dos amigos atrás dele.
Reconheceu Todder, um rapaz baixo e feio com uma
voz desagradável. Todos os recrutas o chamavam
Sapo. Lembrou-se de que os outros dois tinham sido
trazidos por Yoren, violadores apanhados nos Dedos.
Esquecera-se de seus nomes. Quase nunca falava com
eles, a não ser que não pudesse evitar. Eram brutos e
rufiões, sem um resquício de honra entre os dois.
Jon ergueu-se.
- E quebro-lhe o outro se pedir com jeitinho - Grenn
tinha dezesseis anos e era uma cabeça mais alto que
Jon. Todos os quatro eram mais altos que ele, mas
não o assustavam. Batera-os todos no pátio.
- Se nos for conveniente, podemos quebrar você -
disse um dos violadores.
- Tentem - Jon puxou a mão para trás em busca da
espada, mas um deles agarrou-lhe o braço e torceu-o
atrás das costas.
- Você nos faz parecer maus - queixou-se Sapo.
- Você já parecia mau antes de conhecê-lo - disse-lhe
Jon. O rapaz que agarrava seu braço deu-lhe um
puxão para cima, com força. A dor assolou-o, mas
Jon não queria gritar.
Sapo aproximou-se.
- O fidalgote tem boa boca - disse. Tinha olhos de
porco, pequenos e brilhantes. - É a boca da tua
mamãe, bastardo? O que ela era, alguma rameira?
Diga-nos seu nome. Talvez eu a tenha possuído uma
vez ou duas - e riu.
Jon retorceu-se como uma enguia e esmagou um
calcanhar no peito do pé do rapaz que o segurava.
Ouviu-se um grito de dor, e Jon se livrou. Saltou
sobre Sapo, atirou-o para trás por cima de um banco
e pisou sobre seu peito, prendendo-lhe a garganta
com ambas as mãos, e batendo a cabeça dele na terra
batida.
Os dois dos Dedos puxaram-no, atirando-o
rudemente ao chão. Grenn começou a dar-lhe
pontapés. Jon rolava, tentando afastar-se dos
golpes, quando uma voz trovejante soou na obscu-
ridade do armeiro.
- PAREM COM ISTO JÁ!
Jon pôs-se em pé. Donal Noye os olhava furioso.
- O local das lutas é o pátio - disse o armeiro. -
Mantenham suas disputas longe do meu armeiro, ou
as transformarei em minhas disputas. Não gostariam
que isso acontecesse.
Sapo sentou-se no chão, tateando a nuca com
cuidado. Os dedos voltaram cheios de sangue.
- Ele tentou me matar.
- Verdade. Eu vi - interveio um dos violadores.
- Quebrou o meu pulso - disse de novo
Grenn, mostrando-o a Noye. O armeiro
deu ao pulso o mais breve dos olhares.
- Uma contusão. Talvez um entorse. Meistre Aemon
lhe dará um unguento. Vai com ele, Sapo, essa
cabeça precisa ser tratada. Os outros voltem às
celas. Você não, Snow. Você fica.
Jon sentou-se pesadamente no longo banco de
madeira enquanto os outros saíam, indiferente aos
olhares dos outros, às promessas silenciosas de
futuras desforras. Sentia seu braço latejar.
- A Patrulha necessita de todos os homens que
consiga arranjar - disse Donal Noye quando ficaram
a sós. - Mesmo de homens como o Sapo. Não ganhará
honrarias se matá-lo.
A ira de Jon relampejou.
- Ele disse que minha mãe era...
- ... uma rameira. Eu ouvi. E daí?
- Lorde Eddard Stark não era homem de dormir com
rameiras - disse Jon em tom gelado.
- Sua honra...
- ... não o impediu de ser pai de um bastardo. Não é?
Jon estava gelado de raiva.
- Posso ir?
- Vai quando eu disser para ir.
Jon observou carrancudo o fumo erguendo-se do
braseiro, até que Noye lhe tomou o queixo, com
dedos grossos que lhe viraram a cabeça.
- Olha para mim quando falo com você, rapaz.
Jon olhou. O armeiro tinha um peito que era como
uma barrica de cerveja, e um estômago à altura. O
nariz era largo e achatado, e parecia estar sempre
precisando fazer a barba. A manga esquerda de sua
túnica de lã negra estava presa ao ombro com um
alfinete de prata em forma de espada.
- As palavras não farão da sua mãe uma rameira.
Ela era o que era, e nada que Sapo diga pode mudar
isso. Sabe, temos homens na Muralha cujas mães
eram rameiras.
A minha mãe não, pensou Jon, teimosamente. Nada
sabia da mãe; Eddard Stark não falava dela. Mas por
vezes sonhava com ela, com tanta frequência que
quase podia ver seu rosto. Nos sonhos, era bela,
bem-nascida e tinha olhos bondosos,
- Você pensa que tem azar por ser bastardo de um
grande senhor? - prosseguiu o armeiro. - Aquele
rapaz, Jeren, é descendente de um septão, e Cotter
Pyke é filho ilegítimo de uma mulher de taberna.
Hoje, comanda Atalaialeste do Mar.
- Não me importa - disse Jon, - Não me importo com
eles, e não me importo com você ou Thorne ou
Benjen Stark, ou seja quem for. Detesto isto aqui. E
muito... é frio.
- Sim. Frio, duro e miserável, é assim a Muralha e
assim são os homens que a percorrem. Nada como as
histórias que 